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Enzo Fraga, 9, chega ao laboratório e veste um óculos com celular acoplado. Com a ajuda dele, mergulha em uma história sobre vÃrus e bactérias que querem atacar um reino. Para ajudar a defender o lugar, a criança recebe dois poderes: o gelo e o fogo.
O poder gelado, no mundo real, é um algodão com álcool. O poder do fogo, que a protege dos vilões com superpoderes. é a picada da vacina.
"Foi legal. Não doeu", diz ele, enquanto gira um spinner entre os dedos, logo após ser vacinado na VacinVille, um dos laboratórios de São Paulo que têm usado óculos de realidade virtual para facilitar a aplicação de vacinas e injeções em crianças.
Sua mãe, Marjorie Fraga, 43, diz que o medo é familiar. "Sempre sou eu que trago o Enzo. Meu marido não gosta de agulha, então deixa isso para mim", conta ela.
Inicialmente em dúvida sobre a utilidade da realidade virtual, ela considera que o processo de vacinação se tornou menos estressante.
"O choro nem sempre é por causa da dor. É pelo medo da vacina, da agulha e do ambiente. Às vezes ela teve uma experiência ruim e só de ouvir que vai tomar vacina começa a chorar", diz Mayra Ardito, 30, enfermeira do laboratório.
Segundo ela, as crianças choram com ou sem realidade virtual –afinal, não deixam de sentir a picada da agulha–, mas os óculos facilitam o trabalho e viram um atrativo para as crianças a partir dos quatro anos.
"A criança não consegue entender que, mesmo existindo a dor da picada, existe um benefÃcio", diz Melissa Palmieri, coordenadora do setor de vacinas do laboratório Hermes Pardini, que também usa histórias com realidade virtual para distrair as crianças.
Já o Delboni Auriemo não faz uma correlação entre a história da animação –um filme do Scooby Doo– e a aplicação da vacina, mas diz que o efeito de distração do dispositivo é o mesmo e as crianças são informadas do que irá acontecer para não se assustarem.
"Há uma preocupação de tornar o processo menos doloroso e traumático e menos associado a um hospital", diz Ana Karolina Marinho, coordenadora do departamento cientÃfico de imunização da Asbai (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia).
A Organização Mundial da Saúde, inclusive, afirma que não levar em conta a questão da dor durante a vacinação pode ser um dos fatores que impacta negativamente as atitudes relacionadas à saúde e pode levar ao atraso ou a evitar vacinações futuras.
Segundo Marinho, além das próprias crianças, é importante tranquilizar também os pais para que eles passem segurança para os filhos, já que é impossÃvel tornar o processo totalmente indolor.
"A realidade virtual será o futuro, mas a ideia é a mesma de quando fazemos um teatrinho para distrair as crianças ou quando enfermeiros usam roupas coloridas", afirma ela.
O custo da tecnologia, porém, é uma das barreiras para a ampliação do uso da realidade virtual, segundo Miriam Moura, membro da comissão de ética da Sociedade Brasileira de Imunizações.
Na clÃnica VacinVille, por exemplo, foram gastos cerca de R$ 150 mil com desenvolvimento da animação e aquisição de seis óculos e seis celulares para três estabelecimentos do laboratório.
Miriam alerta também para a necessidade de uma discussão franca com as crianças sobre vacinas e a utilidade delas. "Eu não vou usar essa história em alguém com 18 anos", diz. "O que eu acho complicado é que na realidade não se fala em vacina em momento algum na animação. Parece que está enganando a criança."
Ana Karolina destaca que a honestidade quanto ao que vai acontecer é essencial. "Não diga que não vai doer, porque isso seria uma traição. É melhor falar que vai doer um pouquinho, passa rápido e que você estará por perto."
A especialista das Asbai diz ainda que é importante, no dia anterior à injeção –não muito antes, para não causar ansiedade–, falar para a criança que ela será vacinada e explicar como o processo funciona. Além disso, o carinho e acolhimento são indispensáveis.