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O consenso entre profissionais de saúde é que nos últimos meses de vida de um paciente, esgotadas as alternativas de tratamento, o melhor é garantir que ele receba cuidados paliativos para amenizar a dor e melhorar a qualidade de vida.
O problema é quando o tratamento médico convencional –que incluem os cuidado paliativos– acabam sendo substituÃdos por supostas alternativas, modalidades sem qualquer comprovação mensurável de benefÃcios quando o assunto é a cura da doença ou sobrevida.
Foi mais ou menos essa discussão que surgiu após a morte do jornalista e apresentador de TV Marcelo Rezende, no último sábado (16), em decorrência de um câncer de pâncreas em estágio avançado. Ele estava com 65 anos.
Nos últimos meses, Marcelo Rezende publicou periodicamente em suas redes sociais vÃdeos em que dizia estar buscando a cura por meio da fé. O fato de ele ter abandonado o tratamento convencional acabou fomentando a discussão sobre sua saúde.
"É uma questão ética. Qualquer paciente tem o direito de aceitar ou recusar qualquer tipo de tratamento. É um princÃpio básico", diz a médica paliativista Maria Goretti Maciel, diretora do Instituto Paliar, em São Paulo.
Mesmo assim, diz a especialista, o papel do médico é tentar esclarecer o panorama do tratamento e fazer um exercÃcio de empatia, de modo a entrar no universo do paciente e tentar, sob o ponto de vista dele, ajudar a fazer as melhores escolhas.
"O que não pode acontecer é culpar um homem pela própria morte, como se ele tivesse morrido porque não quis se tratar. Ele morreu em decorrência de uma doença grave, a chance de um tratamento curativo era muito pequena. Talvez o tratamento postergasse a morte, talvez ele tenha escolhido viver bem ou talvez ele tivesse um grande medo. A gente não pode julgar", diz Goretti Maciel.
Para o geriatra André Filipe dos Santos, da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, é fundamental deixar claro para o paciente por quais procedimentos ele passará e para quê.
"Existe a modalidade de quimioterapia paliativa, para melhorar os sintomas do câncer e a qualidade de vida, e não para curar. Curiosamente, 70% dos pacientes que recebem esse tratamento acham que estão curados.
FILOSOFIA
Segundo o filósofo e professor Rafael Nogueira, é comum haver uma espécie de despreparo, ou "falta de treino filosófico" quando o assunto é a morte.
"Muitas vezes a mensagem é dura e a pessoa não aceita, já que aquilo que a medicina promete é muito pouco. Aà ela sai em busca de tratamentos que sejam mais afins à sua teimosia", diz.
Segundo Nogueira, há ao menos outras duas maneiras mais maduras de lidar com o tema. Uma é esgotar os recursos oferecidos pela medicina e pela ciência "e só aà partir para a pseudomedicina/tratamentos alternativos", como chás e cirurgias espirituais.
E o jeito mais "cristão e comum" é seguir o tratamento convencional e, ao mesmo tempo rezar e pedir orações para os amigos familiares, por exemplo. "Se a medicina não funcionar, Deus é chamado para prestar um auxÃlio".
TRATAMENTO LETAL
Um estudo recentemente no periódico cientÃfico "Journal of the National Cancer Institute" reuniu dados de pessoas que seguiram tratamentos alternativos no lugar da medicina convencional e mostrou que elas têm uma chance de morrer 150% maior, em média, considerando os quatro tipos mais comuns de câncer: de mama, de próstata, colorretal e de pulmão.
O estudo teve repercussão global, diz o autor Skyler Johnson, da Universidade Yale, que comandou a iniciativa. Segundo ela, o interesse no tema é um indÃcio da falta de dados confiáveis para a avaliação da eficácia de terapias alternativas (por não ter sido possÃvel uma segmentação no estudo, acabaram todas entrando no mesmo balaio).
"A questão para pacientes com cânceres curáveis foi respondida: eles não devem escolher a medicina alternativa. Infelizmente muitos continuarão escolhendo métodos alternativos e mais pesquisa é necessária para entender por que essa decisão é tomada", disse Johnson à Folha.
"Apesar de as terapias alternativas muitas vezes aparentarem ser a única saÃda –como no caso de um câncer de pâncreas, após o uso das convencionais–, elas são um tiro no escuro, uma roleta russa", diz Mauro Zukim, do Americas Oncologia.
O oncologista lembra do caso da fosfoetanolamina, que foi em pÃlulas no interior paulista para supostamente tratar o câncer. Após a realização de estudos ficou claro que ela "não servia pra nada".
A aposta de Zukim e de outros oncologistas é que mesmo no caso do câncer de pâncreas (cuja fração de pacientes vivos após cinco anos é de cerca de 8%) é possÃvel apostar as fichas em tratamentos recentes e naqueles que a ciência ainda está testando.